terça-feira, 21 de agosto de 2007

Este é o ínicio do segundo capitulo do "Arroz na esteira" o livro que vagarosamente vou escrevendo. Como devem calcular nem tudo o que poderão ler será real. Contudo esse é o verdadeiro valor da literatura. Tornar o imaginário real e colori-lo com a sorte.


"Adormeci-me.. enroscada num cobertor do sofá na varanda.. ouvia a chuva cair estremecida, tímida... suavemente na janela ... tudo o que se encontrava à minha volta assumia contornos nítidos e a minha percepção absorvia aquilo que o vidro da janela não deixava entrar... sentia que algo se transformava, na forma como reconhecia o sentimento da alma... aquele de que me falavas, lembras-te? Um misto de tranquilidade e angústia invadiu-me o peito naquele ouvir diferente, naquele sentir sem atribuir nomes... sentia o meu corpo corresponder na plenitude aos estímulos do sentimento da alma, do ânimo... o calor invadiu-me, consumiu-me o âmago do ser... de alguma forma esperava encontrar-te nesse calor, ou esperava que batesses à porta com o teu sorriso maroto pedindo em jeito de brincadeira para entrar... aguardava o teu abraço apertado... mas, teimosamente, deixava-me permanecer no sonho, meio embriagada com o sabor de um cigarro mal fumado... no fundo do sentir, sabia que estavas a fugir-me novamente.. se isso acontecesse, agora, não voltaria atrás novamente.. não teria jamais forças para o fazer.. deixar-te-ia ir com as suaves lágrimas desta chuva, prepararia a minha bagagem do viajante destemido e frágil e iria de encontro a outro sofá.. aí tudo à nossa volta se desmoronaria, e os escombros seriam apenas restos de tijolos partidos, cimento em pó, e fragmentos de areia que o vento transportaria. Li e reli o lunário do al berto.. reconhecia-me e antevia-me... seria, também eu, aquele que recebeu a dádiva do amor, e nada mais do que isso (seria necessário mais?)... seria aquele que viveria um passo à frente do presente e por isso apenas se aperceberia do momento, com medo de o deixar fugir.. seria aquele que não terá recordações (quem vive intensamente fica sem memórias)... serei? Sou?
Ergui-me trôpega no caminho para a cama... ouvi passos do Manuel entrando no meu quarto.
Não apagues a luz. Ainda não durmo. Preocupação expressa no olhar de quem reconhece o sofrimento. Sofremos, amor... ambos! Andamos os dois com um passo no futuro e queremos prolongar o do presente, para que o caminho não nos tome a capacidade de andar... Descobri com quem tiveste...e o que és! nem seria necessário descobrir, perguntar, indagar... percebi no primeiro momento em que me pediste para guardar segredo sobre a aventura da noite anterior, percebi na forma como o beijaste naquela discoteca.. Não era a primeira vez, se fosse estarias amedrontado como sempre acontece quando te sentes ameaçado, quando o desconhecido se te impõe... sempre soube que eras gay, híbrido, indefinido.. alguma destas coisas pelo menos serias... os anos de convivência e partilha de casa diziam-mo. Falava com o Ricardo no outro dia, acreditando que estás a fazer o teu caminho interno para te descobrires, como te descobri... dialogo tudo isto com o teu olhar esperançada nos ouvidos que ele não têm.
Finalmente adormeci. Acordei várias vezes a meio da noite. Cada vez mais se repetiam estes sobressaltos nocturnos, fruto das continuadas noites de álcool no sangue. Reconhecia que bebia cada vez com mais frequência, reparava no cinzeiro cheio de cigarros apagados das noites de insónias, e nas constantes ressacas de cansaço físico, nas poucas horas de sono, nas poucas horas de solidão. Procurava ocupar a mente para te esquecer, o coração para não te sentir, o corpo para não te procurar. Todas as noites de alguma forma tinha a minha vida cheia... cheia dos problemas dos outros, das suas angústias, das suas verdades e mentiras, dos seus risos.
A verdade é que ainda pensava em ti. E em rasgos de lucidez e entre engasgos de enganos percebia o quanto te amava, o quão presente estavas em mim. Nesses momentos (como o de agora!) em que uma música me despertava, um arrepio me assolava, uma solidão me consumia, ganhava a certeza da tua ausência em mim.
Os esquemas subliminares nos quais me envolvia apenas disfarçavam a dor e a ânsia de te ter. Percebia, nesses intervalos, que a loucura não se separava do Amor e angustiava-me perante a incerteza de estar louca ou de te estar a amar loucamente. Não deixava de existir uma doçura viciante neste jogo de descoberta... no conhecer o limite das nossas resistências, no viver cada segundo como se não existisse minuto, na partilha intensa daquilo que era e não era quando estava em ti. Mas a verdade é que nesse caminho não estava presente o conhecimento que tenho de mim, nem tão pouco o meu bem-estar... quando acordava a meio da noite e não te sentia a meu lado... quando me sentava num banco de jardim vazio...
... o jardim... mais um momento.. vivo-o agora ainda.. num despertar estremecido daquilo que fomos... lembras-te? O calor quente do sol batendo em nossos corpos ainda envergonhados um com o outro, quando faltávamos ao trabalho para permanecermos invisíveis ao mundo e embrenhadas nas palavras de antecipação da nossa história, ou quando discutíamos o processo de mudança do ser e do estar, ou quando deixávamos o riso fluir em nós sem parar... sem parar... estendidas naquela manta, no meio de tanto verde.. vivo-o agora... na nossa casinha naquele banco de jardim... onde, como crianças que recriam o mundo, projectámos e fantasiámos a nossa vida em comum... vivo-o agora nos recomeços intermináveis desta história sem fim, planeados em todos os bancos do Jardim da Estrela que percorremos... "

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