Acabei de chegar ao trabalho, depois de um demorado almoço. O calor da sala onde trabalho acentua a minha incapacidade de ser produtiva. Neste momento sinto o meu cérebro estagnado para tudo o que diz respeito ás tarefas profissionais... Sei que o dia vai ser longo e que me irei simplesmente arrastar por este corredores, mentindo a mim própria que ainda conseguirei fazer qualquer coisa de útil..
Acho simplesmente inacreditável o calor que ainda se sente pela rua em pleno Outono... Apetece-me sair do trabalho e ir disparada para o comboio até cascais... Quero ir ver o mar.. Acontece sempre no meu espírito apaziguar-me quando o revejo.. Tinha prometido aos meus pais que iria passar este fim de semana a casa, mas mais uma vez o trabalho irá absorver-me durante o fim de semana e não poderei partir. Pelo menos lá sei que iria á minha praia... e que poderia encontrar consolo no abraço do meu afilhado, nas suas palavras doces, nas suas birras de miudo imaturo.. Estes últimos meses têm sido um pesadelo e sinto que preciso do colo da mãe.. um colo que há muito tempo não encontro. Na verdade ela também não anda bem há muito tempo e quando estou por lá acabo por ser sempre eu a ouvir os seus desabafos e a procurar tranquilizá-la. Gostava tanto de lhe poder contar tudo de uma vez, mas não quero que ela sofra em vão e temo pelo coração dela.. às vezes, quando penso muito nisto, dá-me um aperto no peito pensando que poderei desencadear algo de muito grave. Não sei como têm estado fisicamente e apesar de ter feito exames recentemente nem comentou o resultado comigo. Creio que também ela não me queira preocupar. Por isso arrependo-me sempre quando permito que estas ideias tomem conta de mim, crendo que a minha vontade em revelar-me é um sentimento egoísta de quem quer fugir a mais perguntas sobre os namorados, os filhos que ainda não tenho, a casa que ainda não comprei.. Enfim.. acabo por me resignar e aguentar os resmungos do meu pai que anseia por um neto que tarda em chegar: Vais ficar para tia - diz-me ele. Ignoro ou evito a questão com um ou outro comentário inapropriado e chocante: Não te preocupes que quando me apetecer ter filhos recorro á inseminação in vitro. Rio-me baixinho para mim própria. No mínimo ele deve achar que têm uma filha completamente louca... Penso para comigo que eles são de outro tempo mas que é minha responsabilidade educá-los, uma tarefa que os jovens de hoje não têm muita consciência de dever. Esquecem-se que o ritmo de mudança social e cultural é elevadíssimo e que antigamente não era imposto aos pais habituarem-se ás novas tecnologias, aos novos costumes e comportamentos societais, aos novos centros comerciais que florescem em cada esquina, aos últimos modelos de télemóveis, ao uso do multibanco.. enfim...
Gostava de os rever, de lhes dedicar o meu tempo, mas é díficil explicar-lhes que a minha vida agora mudou e que eles também têm que me visitar... Palavras inglórias para quem está habituado a um ritmo de vida mais tranquilo e para quem o ausentar-se da terra é quase um sacrilégio: quando tiver férias passo por aí... ou então um vou ver o benfica aí um dia destes...
Enfim.. finjo que acredito como fazia quando o meu pai me prometia algo em míuda que sabia que não iria cumprir.
Hoje é quinta.. e ainda tenho muito que fazer até segunda... De alguma forma também tento mergulhar no trabalho.. procurando tirar-te por uns minutos (ainda que breves) da minha cabeça.. Isso ajuda-me a acalmar a ansiedade constante que sinto e a saber gerir esta distância.. Tenho dado pouco espaço para estar comigo e procuro recuperar alguns laços antigos que me ajudem a rever o caminho que fiz até aqui e porquê da minha permanência ainda em Lisboa.. Acho que de uma certa forma tento perceber o porquê de ter ficado, quando na altura o meu maior desejo era partir... reconheço que o desejo é diferente da minha capacidade em partir e a verdade é que nunca iria partir naquela altura.. estava desencontrada de mim mesma.. mesmo sentindo cabo verde chamar por mim.. reconheço que não foi por ti, embora tivesses tido um peso desmedido na minha opção, reconheço que não foi por medo de abandonar o nada que aqui construí, reconheço que não foi por estar a descobrir um mundo novo que há muito desejava.. uma noite em lisboa que desconhecia..muito mais intercultural....
A sara acabou de chegar aqui.. conta novidades do projecto da guiné.. fala pouco, ainda cheia da intensidade do que lá viveu.. é tão bom sentir isto... fico com saudades e volto a questionar tudo outra vez...
mas já percebi que será sempre assim.. esta angústia entre o ir e voltar nunca conseguirei tranquilizar..
Só tu e a tua presença me davam essa calma... onde estás agora?? ONDE??
Beijo..
A...
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
21 gramas
Existe apenas 21 gramas entre a vida e a morte.. 21 gramas... um filme, do qual apenas ouvi falar, e que todos dizem ser simplesmente inesquecível... não sei porque o recordei agora... acho que talvez por me sentir assim neste momento meio morta (adormecida?) meio viva.. A semana passada faleceu o tio do meu afilhado, uma pessoa com a qual tive oportunidade de trocar impressões várias vezes.. uma pessoa distinta (com um ligeiro toque de um snobismo saudável), interessante e relativamente culto.. Tinha 46 anos e uma filha com sete... Cancro! Apenas resistiu um mês desde o momento em que este lhe foi diagnosticado... um mês imóvel numa cama e tentando acreditar que era possível sobreviver... mais uma vez, não fui ao funeral.. tinha que trabalhar... incrível a facilidade com que me justifico na loucura do ritmo de vida que levo.. e na falta de tempo.. é quase inacreditável...
Recordo a quantidade de pessoas que me pediu tempo... tempo para ouvir.. tempo para estar... e acima de tudo tempo para amar.. eu própria me impus tempo para amar.. primeiro o estar preparada.. o aceitar... mais tarde.. tempo para esperar.. a distância desse mar assim o implorou... até deixar de fazer sentido.. apesar de não esquecer cabo verde..
Penso em tudo isto e não consigo deixar de sentir um frio no ventre... por aqui o tempo esgota-se rapidamente... e as pessoas fazem a sua vida sem se questionar sobre ele... deixam passar o crescimento espantoso dos seus filhos, as aprendizagens que fazem ao longo da vida esquecendo-se da capacidade de renovação do ser humano, iludem-se com as viagens que fazem nas férias procurando sair da rotina, esquecem-se, no fundo, que pode não haver amanhã.. e vão vivendo nesse confronto.. porque não tiveram tempo para se despedir quando o marido, o filho, a mãe morrem, porque não tiveram tempo para perdoar ou para aceitar... porque não tiveram tempo para tentar e arriscar.. eu não quero tornar-me nessa pessoa que procura os resultados e não está atenta ao processo... não quero!
Vou por isso atender ao processo.. amando o sofrimento e a dor que agora sinto.. e acreditando que darei tudo de mim... não quero chorar mais tarde por não ter tentado... pelo menos cabo verde devolveu-me isto: a capacidade de nunca me esquecer de dizer um “amo-vos pais”.. um “amo-te andré”...
Um “amo-te a ti”!... e vou dar tempo a quem me ama... a ti, principalmente, que por minha causa adias o teu amanhã... o teu futuro! E a ti mãe.. que mesmo nunca me entendendo sempre me aceitaste... mereces mais do que alguma vez te conseguirei devolver... apenas agora reconheço isso!
Amor... eu espero sim!!! eu espero!
Amo-te.. amo-te.. amo-te!
Beijo.
Lú
Recordo a quantidade de pessoas que me pediu tempo... tempo para ouvir.. tempo para estar... e acima de tudo tempo para amar.. eu própria me impus tempo para amar.. primeiro o estar preparada.. o aceitar... mais tarde.. tempo para esperar.. a distância desse mar assim o implorou... até deixar de fazer sentido.. apesar de não esquecer cabo verde..
Penso em tudo isto e não consigo deixar de sentir um frio no ventre... por aqui o tempo esgota-se rapidamente... e as pessoas fazem a sua vida sem se questionar sobre ele... deixam passar o crescimento espantoso dos seus filhos, as aprendizagens que fazem ao longo da vida esquecendo-se da capacidade de renovação do ser humano, iludem-se com as viagens que fazem nas férias procurando sair da rotina, esquecem-se, no fundo, que pode não haver amanhã.. e vão vivendo nesse confronto.. porque não tiveram tempo para se despedir quando o marido, o filho, a mãe morrem, porque não tiveram tempo para perdoar ou para aceitar... porque não tiveram tempo para tentar e arriscar.. eu não quero tornar-me nessa pessoa que procura os resultados e não está atenta ao processo... não quero!
Vou por isso atender ao processo.. amando o sofrimento e a dor que agora sinto.. e acreditando que darei tudo de mim... não quero chorar mais tarde por não ter tentado... pelo menos cabo verde devolveu-me isto: a capacidade de nunca me esquecer de dizer um “amo-vos pais”.. um “amo-te andré”...
Um “amo-te a ti”!... e vou dar tempo a quem me ama... a ti, principalmente, que por minha causa adias o teu amanhã... o teu futuro! E a ti mãe.. que mesmo nunca me entendendo sempre me aceitaste... mereces mais do que alguma vez te conseguirei devolver... apenas agora reconheço isso!
Amor... eu espero sim!!! eu espero!
Amo-te.. amo-te.. amo-te!
Beijo.
Lú
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