quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sentei-me no duro sofá vermelho do ikea, estilo vintage conforme a moda dita no momento (segundo a mariana a melhor loja do mundo, onde ela conseguiria passar horas e horas perdida.. se tivesse dinheiro!)... hoje quis permanecer nesta sala, longe dos meus fantasmas (os do passado e aqueles que agora atormentam a minha vida)... começo a querer afastar-me deste mundo cheio de hipocrisias, traições e mentiras.. penso na reviravolta da minha vida nos últimos três meses.. tudo me parece confuso.
O ricardo, acabado de acordar e a preparar-se para entrar no turno da noite, cumprimenta-me com um resmungo.. dou-lhe alguns minutos para que ele coma e se recomponha e pergunto-lhe finalmente se está tudo bem:
- oh.. está tudo na mesma! O que poderia ter mudado desde há pouco?
- sei lá.. podias ter conhecido o homem da tua vida..
- Com a minha sorte, esse dia nunca chegará...
Pronto.. percebi de imediato pelo seu tom de voz agressivo que ainda estava com o mau humor "matinal"!
Geralmente é sempre assim quando trabalha neste horário... chega a casa quando eu me encontro de saída, histérico e sorridente e sai quando eu estou no auge da boa disposição.. enfim.. detesto quando estamos desencontrados.. no fundo é a sua presença que me garante alguma estabilidade, que me situa no meio dos meus diálogos.. fico feliz por ser gay, por ser um dos meus melhores amigos e confidenciarmos sem barreiras os nossos maiores segredos.. talvez só ele me entenda verdadeiramente neste momento.. foi, no fundo, ele que me apanhou do chão no dia em que a Carolina me deixou.. a desilusão de amor é completamente decadente quando nos deixamos levar por ela.. sentimos que deixamos de ter um motivo que nos prenda a este mundo!! ele percebeu bem isso quando naquela manha me ajoelhei aos pés da sua cama completamente extenuada pelo desespero. A carolina tinha acabado de me mandar aquela mensagem, um inacreditável estalo de luva branca, que apenas veio confirmar as minhas incertezas e em simultâneo compreender que nada mais havia a fazer para lutar por aquela relação.. "nunca pensei dizer isto, mas preciso de um tempo, preciso de voltar".. de voltar??? para onde? tinha acabado de a confrontar com o motivo pelo qual ela tinha vindo para Lisboa, se procurava a sua liberdade ou se me procurava a mim! hoje ainda penso nisto.. às vezes... quando penso no que pretendo de um futuro relacionamento... nestas alturas penso que não mais me dedicarei a alguém da mesma forma, não mais colocarei alguém acima de mim própria, que não mais permitirei passar noites em claro pela mensagem que tarda em chegar, pela preocupação de saber como ela estará, pelo beijo de despedida que não veio naquela noite, nem na outra... nem na outra.. Naquele dia tudo me parecia surreal, como se eu fosse acordar de um momento para o outro, e perceber que tudo tinha sido um pesadelo.. duas semanas andei assim.. perdi o apetite, o sono, a vontade de fazer o que quer que fosse, a vontade de rir..
Ouço o bater da porta e um adeus irritante e perturbador provocado pela voz estridente de gozo do ricardo.."Xau, sua bicha doida" respondo já com a porta fechada..
Sozinha na sala.. assim fiquei..
Percebi que isso já não acontecia desde aquela manhã e entendi que queria deixar para trás os meus tormentos, as minhas mulheres confusas e ficar apenas comigo, naquele sofá.. e voltar a reflectir.. percebi que tenho que começar a pensar novamente, que não posso eternamente fazer o que me apetece e deixar-me levar apenas pelos sentidos irreflectidos, que não posso deixar que me magoem novamente.. há noites em que tudo acontece, em que todas as verdades se descobrem e de repente tudo se torna clarividente. Percebi ontem que mais uma vez tinha sido ingénua.. no meio da loucura de querer conhecer pessoas, de querer permanecer sem prisões, que deixava as pessoas tirarem mais proveito de mim de que eu delas, aquele proveito descomprometido e egoísta... percebi que continuarei a ser eu própria em qualquer contexto (com algumas nuaances de personalidade e de comportamento, mas eu própria..), capaz de me entregar loucamente. Percebi também que é, no fundo, isso que me assusta hoje, nesta madrugada: sinto-me a entregar novamente a um(des)amor, e a sentir aquele aperto de angústia feliz... isso chega misturado com dor..
Vem-me à cabeça um momento de indecisão: daqueles que me me obrigam a optar no meio de muita fragilidade.. Hoje terei que optar por me deitar no sono deste chorinho feliz ou expiar os mesus pecados no banco do meu jardim na quintinha, fechando mais uma porta para não sofrer..
Desligo o pc... e aconchego-me nos lencóis da cama.. hoje não é o dia ed fechar portas.. talvez possa abir apenas uma janela.. e esperar pelo histerismo do ricardo chegando novamente de manha a casa...

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